A aviação comercial global enfrenta a sua mais complexa encruzilhada tecnológica desde a invenção da turbina a jato. Responsável por cerca de 2,5% das emissões planetárias de dióxido de carbono, o setor aéreo não dispõe de baterias elétricas leves o suficiente para voos de longo curso, tampouco de aeronaves a hidrogênio prontas para operação em escala comercial nesta década. A única ponte realista e imediata para conter o aquecimento global reside no Combustível Sustentável de Aviação (Sustainable Aviation Fuel ou SAF).
Nesse tabuleiro geopolítico e ambiental, o Brasil acaba de consolidar uma liderança estratégica invejável. Com a regulamentação do Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV) pelo Decreto nº 13.094/2026, no âmbito da histórica Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), o país estabeleceu metas mandatórias de redução de emissões para as companhias aéreas a partir de 2027 e abriu caminho para transformar a sua centenária agroindústria canavieira no maior celeiro de querosene verde do planeta.
Em Poucas Linhas: O que Você Precisa Saber
- Metas Progressivas a Partir de 2027: O ProBioQAV determina que os operadores aéreos reduzam suas emissões em pelo menos 1% a partir de 1º de janeiro de 2027, escalando gradualmente até atingir 10% de redução obrigatória de gases de efeito estufa (GEE) até 2037.
- A Força da Rota Alcohol-to-Jet (ATJ): Ao consagrar o princípio da neutralidade tecnológica, a regulação brasileira abre espaço privilegiado para o etanol de cana-de-açúcar e de milho ser convertido em combustível de aviação com pegada de carbono até 80% menor que o querosene fóssil.
- Sistema Inovador Book and Claim: A criação do Certificado de Sustentabilidade do SAF (CS-SAF) permite que as empresas comprem os atributos ambientais do combustível verde sem exigir a entrega física complexa em todos os aeroportos, destravando a viabilidade econômica do mercado.
O Diferencial Brasileiro: Redução de Ciclo de Vida em Vez de Cota Física
Diferente de blocos econômicos como a União Europeia — que adotaram mandatos rígidos de volume físico de mistura em cada tanque —, o marco regulatório brasileiro elaborado pelo Ministério de Portos e Aeroportos em parceria com a ANP e a ANAC fez uma escolha técnica muito mais sofisticada: a eficiência de mitigação de emissões por ciclo de vida completo.
Isso significa que o foco não é simplesmente colocar uma porcentagem fixa de líquido no avião, mas mensurar o impacto real de descarbonização desde o plantio da cana, a colheita mecanizada sem queima e a fermentação até a queima na turbina:
[Ciclo de Vida Integrado do SAF de Etanol Brasileiro]
├── Campo & Agrofloresta ────► Cana e milho com rastreabilidade por satélite e CAR
├── Biorrefinaria Avançada ──► Cogeração de energia com bagaço e rota Alcohol-to-Jet (ATJ)
├── Rastreabilidade & ANP ──► Certificação internacional sob os padrões CORSIA da OACI
└── Queima na Turbina ──────► Redução de até 80% no balanço líquido de carbono fóssil
Essa abordagem valoriza a alta produtividade agrícola do Brasil, que produz etanol com uma das menores pegadas de carbono do mundo. Produtoras e distribuidoras como Raízen, FS Bioenergia e Petrobras já destinam bilhões de reais em capex para a construção das primeiras plantas dedicadas de conversão de etanol em SAF em solo nacional.
O Mecanismo Book and Claim e a Integração Global com o CORSIA
Um dos maiores desafios logísticos da aviação sustentável sempre foi a infraestrutura aeroportuária. Distribuir caminhões com combustível verde para dezenas de aeroportos no interior do país geraria emissões logísticas contraproducentes e custos proibitivos para as empresas aéreas.
Para superar esse entrave, o Decreto nº 13.094/2026 instituiu formalmente o Certificado de Sustentabilidade do SAF (CS-SAF) baseado no mecanismo internacional Book and Claim:
- Injeção Centralizada: A refinaria ou usina produtora pode injetar o SAF certificado diretamente na infraestrutura de dutos do Aeroporto de Guarulhos ou do Galeão.
- Desacoplamento do Atributo Ambiental: O combustível físico se mistura à malha convencional, mas os créditos digitais de redução de emissões (CS-SAF) são emitidos e negociados na plataforma da ANP/ANAC.
- Cumprimento de Metas: Uma companhia aérea que abastece uma aeronave em Manaus ou Porto Alegre pode adquirir os CS-SAFs de Guarulhos para comprovar o abatimento de suas emissões regulatórias.
Além disso, a regulamentação brasileira está 100% harmonizada com o CORSIA (Carbon Offsetting and Reduction Scheme for International Aviation), o programa da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI). A partir de 2027, quando a fase compulsória do CORSIA entrar em vigor para voos internacionais que partem do Brasil, as companhias aéreas brasileiras e globais poderão abater suas obrigações mundiais com o biocombustível brasileiro certificado.
Os Desafios da Paridade de Preço e a Segurança de Suprimento
Apesar do horizonte promissor, o SAF ainda enfrenta uma barreira de mercado clássica: o custo de produção. Atualmente, o querosene sustentável de aviação custa entre duas e três vezes mais do que o querosene fóssil tradicional (Jet-A1). Sem incentivos ou mecanismos de transição, esse sobrecusto poderia se refletir no preço final das passagens aéreas.
É por essa razão que as agências reguladoras brasileiras incluíram salvaguardas nos regulamentos, prevendo mecanismos de flexibilização caso haja desequilíbrio transitório entre a oferta interna e a demanda obrigatória das companhias aéreas. O setor produtivo, contudo, aposta que a escala industrial acelerada do etanol brasileiro permitirá atingir a paridade de custos muito mais rápido do que as rotas europeias baseadas em hidrogênio sintético ou óleos de cozinha reciclados (HEFA).
Ao unir o agronegócio de baixa emissão com a tecnologia aeronáutica de ponta representada por gigantes como a Embraer, o Brasil prova que a sustentabilidade não precisa ser uma barreira ao desenvolvimento, mas sim o seu maior vetor de riqueza e projeção geopolítica.
Perguntas Frequentes
O que é o ProBioQAV e quando ele entra em vigor?
O ProBioQAV é o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação instituído pela Lei do Combustível do Futuro. Ele estabelece a obrigação de redução de 1% nas emissões de gases de efeito estufa das companhias aéreas a partir de 1º de janeiro de 2027, aumentando progressivamente até 10% em 2037.
Os aviões atuais precisam de adaptações nos motores para queimar SAF?
Não. O SAF é um combustível do tipo drop-in, o que significa que possui propriedades físico-químicas equivalentes às do querosene fóssil e cumpre normas internacionais rigorosas (como a ASTM D-1655), podendo ser misturado diretamente sem necessidade de qualquer alteração nas aeronaves ou tanques aeroportuários.
Como funciona o sistema Book and Claim do SAF?
O sistema Book and Claim desvincula a entrega física do combustível do seu atributo ecológico. O SAF é injetado em um ponto logístico eficiente (como o duto de um grande aeroporto), e a companhia aérea pode adquirir o Certificado de Sustentabilidade (CS-SAF) para comprovar sua conformidade ambiental, mesmo abastecendo aeronaves em outras localidades.
🔗 Fontes & Referências Consultadas:
- Governo Federal do Brasil — Regulamentação do Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV - Decreto 13.094/2026)
- Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) — Especificações técnicas e certificação de biocombustíveis de aviação
- Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) — Normas de monitoramento, reporte e verificação de emissões e governança do CORSIA
- Organização da Aviação Civil Internacional (OACI/ICAO) — CORSIA Sustainable Aviation Fuels rules and international carbon accounting







